Por que enfrentamos uma crise de liderança em todo o mundo?

Uma nova pesquisa revelou que líderes empresariais de todo o mundo mostram baixo desempenho quando avaliados segundo as habilidades e capacidades que precisarão no século XXI. Gurnek Baines e sua equipe da YSC realizou uma análise detalhada de 1.500 executivos de todo o mundo classificando seus desempenhos em relação a vinte traços de liderança desejáveis.

A pesquisa destacou algumas diferenças regionais intrigantes. O Oriente Médio obteve maior proporção de executivos orientados para o mercado do que a América. E líderes empresariais latino-americanos foram, de longe, os mais ambiciosos. Mas o verdadeiro destaque da pesquisa foi a consistência dos pontos fortes e fracos ao redor do mundo. Os líderes demonstraram ser ambiciosos, analíticos, voltados para a ação e orientados para o mercado. Por outro lado, demonstraram ser pouco estratégicos, inclusivos e experientes.

Entretanto, a área em que os executivos realmente falharam foi na interação humana. O estudo constatou que nenhuma região pôde gabar-se de possuir mais de 10% de seus líderes com habilidade de formar boas conexões. O mesmo vale para autoconsciência. Na verdade, apenas a Europa garantiu um pouco mais de 20%.

Em suma, as empresas de todo o mundo estão sendo conduzidas por pessoas dinâmicas e analíticas, mas que têm dificuldade em criar conexões humanas básicas. Como o próprio Gurnek Baines afirma, os dados mostram que mais de 40% dos altos executivos possuem vontade, grandes realizações e ambição, mas apenas um quarto demonstra possuir empatia, autoconhecimento e excelente perspicácia.

Alguns podem não achar esses dados preocupantes, afinal nossos líderes não deveriam ser as pessoas mais ambiciosas do mundo? Empatia e autoconsciência são para padres e conselheiros, não para aqueles que buscam o lucro em um mercado difícil, certo? Bem, o problema com essa perspectiva é que este modelo de líder heróico, ambicioso e autocentrado está cada vez mais irrelevante no cenário do século XXI.

Como um número crescente de estudiosos está reconhecendo, as organizações bem-sucedidas de hoje não são aquelas moldadas pela ambição e dirigidas por uma elite de líderes, mas sim aquelas que liberam o potencial criativo de seus colaboradores, parceiros e clientes. Estamos em uma era em que "Todos podemos ser agentes de transformação", no qual as pessoas esperam ser cada vez mais criadoras e respeitadas dentro de uma empresa ao invés de meras formigas operárias à espera de ordens. Ou seja, o mundo está tão complexo e fluido que seria arrirscado pensar que pequenos grupos de líderes acompanharão o ritmo dessas mudanças. O melhor a se fazer, portanto, é reconhecer que não há escolha a não ser contar com insights e ideias do coletivo.

Como Frederic Laloux argumenta, o papel dos executivosseniores não é conduzir, mas facilitar e apoiar a autonomia de decisão de seus colegas. Henry Timms e Jeremy Heimanns têm mostrado que os líderes precisam ver suas organizações como plataformas para o esforço criativo de muitas pessoas, e não para suas próprias ambições e visão. Peter Henge, Hal Hamilton e John Kania definem suas ideias de sistema de liderança citando Lao Tzu: o líder ruim é aquele que as pessoas desprezam; o bom líder é aquele que as pessoas elogiam; o grande líder é aquele sobre quem as pessoas dizem “nós fizemos sozinhos” - no sentido de que ele as empoderará para que se sintam hábeis a tomar as melhores decisões.

Bill Drayton, fundador da Ashoka, resume dizendo que todos nós precisamos dominar as habilidades que nos permitam ser sensíveis à perspectiva dos outros e entender profundamente como nossas decisões podem ativar ou bloquear os objetivos daqueles com quem queremos nos conectar. Ele chama isso de domínio da empatia. Líderes não são imunes a tais imperativos e, na verdade, podem ter ainda mais necessidade de adotar a empatia e a autoconsciência dado o maior poder formal que possuem.

Dessa forma, as descobertas de Baines devem nos preocupar. Elas sugerem uma disjunção crescente entre o tipo de líderes que temos e o tipo de líderes que realmente precisamos. Assim, em um mundo em que "Todos podemos ser agentes de transformação”, as pessoas estão pedindo para serem compreendidas e empoderadas, ao invés de estereotipadas e dirigidas por seus chefes, e esses chefes precisam se adaptar - rapidamente.

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Texto traduzido e adaptado do original de Adam Lent, Diretor Europeu de Pesquisa e Inovação da Ashoka, publicado na página da Ashoka global.